Estava eu a treinar num manequim para o teste de "Interrogatório sob Tortura II", fundamental para passar no 2º semestre do curso de ciências policiais da Universidade Bush Filho, que me garantirá a habilitação mínima para receber um preso de Guantanamo, quando tocou o telefone.
Pensei "É sempre a mesma coisa! Sempre que estou intelectualmente concentrado, ou é o telefone que toca, ou é um cão pisteiro que ladra, ou é um preso que confessa, tirando toda a beleza ao silêncio em que deve desenrolar-se a nobre arte do espancamento!"
Era o Dr. Dias Ferreira!
Pensei em não atender. Mas achei melhor não o fazer. Assim como assim toda a comunicação social e as agendas culturais dos municípios sabem que hoje à tarde não tenho qualquer palestra sobre a "pequena Maddie".
Levantei o auscultador e antes mesmo que o Dr. Dias Ferreira pudesse falar atalhei, peremptório: "Senhor Doutor, agradeço-lhe o telefonema mas já tive ocasião de dizer à Dra. Manuela que não estou disponível para averiguar para onde foram os votos do dr. Rangel! Até porque os meus lumpen-contactos informaram-me de que se tratou de um "inside-job" e, a ser assim, eu não me meto. Sou corajoso mas não sou suicida! Não quero acabar os meus dias emparedado na estante oculta de alguma casa-de-banho esconsa!"
Que não, sossegou-me Dias Ferreira, nada disso.
O que pretendia era que eu investigasse um árbitro de futebol, um tal de Duarte Gomes, num processo que poderia vir a ficar conhecido como "Apito Prateado"!!!
Aparentemente o meliante em questão teria deliberadamente prejudicado o Sporting no seu recente encontro com o Porto.
O pagamento era tentador. Todas as despesas, incluindo as bicas com cheirinho e uma retroescavadora em segunda mão para poder voltar a revolver o jardim do Murat.
Aceitei e decapitando o manequim com a técnica de um sargento da GNR, deitei mãos à obra.
Era o momento de pôr em acção todos os conhecimentos adquiridos ao longo de uma vida na PJ.
Comecei por uma vigilância apertada. Passei dois dias no morro sobranceiro à praia do Meco com potentes binóculos. Não que tivesse qualquer pista de que o Gomes aí fosse mas, nunca se sabe e, de qualquer maneira, não dei o tempo por mal empregue.
Passei depois à fase da investigação. Confesso que é a fase mais dura. Ás vezes têm de se ler 2 ou mesmo 3 documentos. E todos sabem que as letras não são o forte de um operacional. 2 páginas A4, 5 horas e 8 aspirinas depois, o esforço começou a dar frutos.
O suspeito não era o cidadão impoluto que aparentava ser. Era bancário, logo tinha ligações ao mundo do crime.
Mas a peça fulcral foi-me fornecida por um dos meus lumpen-informadores, que identifico apenas por FL, que trabalha ali para Belém e que tem uma ligação pirata que lhe permite ver a Sport TV à borla. Nada mais, nada menos que a gravação de todo o encontro Porto-Sporting.
Perante este bambúrrio de sorte corri para casa, dispus os meus apetrechos de polícia científica (4 bejecas, 2 sandes de córatos, um maço de Português Suave e 4 palitos) e preparei-me para ver a prova do crime.
Valeu a pena.
Pela primeira vez na minha vida tive de reconhecer o erro da suspeita. Duarte Gomes, na realidade, tinha feito tudo o que esteve ao seu alcance para beneficiar o Sporting SAD.
E as provas eram muitas.
Começando pelo Polga. Duarte Gomes viu o que toda a gente estava a ver no estádio. Que Polga não estava a jogar nada e só estava a prejudicar o Sporting. Como Paulo Bento não o tirava, tirou-o Duarte Gomes.
Logo de seguida, ao ter sido avisado pelo auricular, de que se encontrava no estádio um olheiro do Manchester a observar o Rui Patrício, e como os avançados do Porto não rematavam à baliza. marcou um penalty para o jovem poder brilhar ao defendê-lo, o que permitirá ao Sporting acalentar a esperança de fazer mais uma transferência milionária podendo assim comprar de volta o Tiui para fazer dupla com o Angulo.
Por fim, verdadeiramente ébrio de empatia com a massa associativa dos leões, decidiu fazer o que a Direcção não consegue fazer ao Paulo Bento, ou seja, expulsá-lo e afastá-lo da equipa por uns jogos!
Chama-se a isto "levar o Sporting ao colo"!
Custa-me chegar a esta conclusão, mas vou ter de ligar ao Dr. Dias Ferreira a dar-lhe conta dos resultados e da inocência deste tipo.
É duro, mas eu sabia que havia de chegar o dia em que teria de reconhecer a inocência de um suspeito...
Ou talvez não...
Posso sempre ligar para o Pinto da Costa, disfarçando a voz com um sotaque algarvio e avisá-lo de que tenho informações de fonte segura que o Duarte Gomes anda a querer tramar o FCPê e que se prepara para expulsar o Hulk no aquecimento do próximo jogo, pelo que sugeria que contratasse os serviços do célebre detective e ex-futuro autarca Amaral!
Mas só telefono amanhã. Sim, porque eu na PJ também tive aulas de ética profissional!
Para já, vou ver mais uns episódios do Cops. Aquilo sim, é uma série! Devia dar na RTP2 porque é educação para a cidadania!

Sem comentários:
Enviar um comentário